É uma dor insana e intermitente quando um grande amor vai embora. Não importa quem é e nem de que forma. Pode ser um parceiro que se separou, pode ser alguém importante que morreu, um filho que foi morar em outro país... São tantas maneiras em que pode perder...
As separações são temas freqüentes na busca de ajuda, são gatilhos para que pensemos que há muito dentro de nós que precisa ser revisto. Quando é necessário "tocar a vida pra frente" aparece a necessidade de se reinventar e neste contexto a sensação de estar perdido é quase inevitável.
Recolher os cacos, rever os momentos, guardar na lembrança cenas que se repetem, reviver traumas... Tudo fica muito aflorado num contexto em que alguém que ocupava um lugar muito especial (e às vezes insubstituível) vai embora e deixa uma gigantesca lacuna. Fica um vazio onde muitas coisas afloram: sentimentos diversos, cenas, necessidades. Toda dor aguda necessita ser acolhida, o vazio grita para ser preenchido, mas como?
A psicoterapia pode ser muito útil na reorganização de si e na identificação de tantas situações confusas. A energia amorosa que estava depositada na relação com aquela pessoa fica desligada, perdida e necessita ser reintegrada dentro da gente mais uma vez. O acolhimento e a criação de um espaço interno para permitir um novo começo pode ser conquistado em uma relação onde se pode ser apenas o que se é de verdade.
Se as perdas são difíceis, perder a si mesmo é ainda mais complicado. Escute-se, conheça-se e a psicoterapia pode ajudar (vide postagem anterior sobre a escuta) .
Tenha um bom dia.
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quinta-feira, 19 de abril de 2012
quinta-feira, 12 de março de 2009
Sobre o Desespero
Hoje, peguei uma lotação no centro de Porto Alegre, chovia. O motorista chegou dizendo que havia se atrasado porque houve um acidente no trajeto que levava ao centro. Quando fizemos o trajeto da volta: outro acidente. Um ônibus se perdeu na curva e entrou em um prédio de comércio na esquina. Todos os passageiros se levantaram, olhavam, comentavam perplexos. Rapidamente as pessoas que não estavam se olhando começaram a conversar umas com as outras e os ânimos afloraram. As possibilidades de morte tão nítidas, tão ao lado... Estávamos passando... Tudo ali. Seguiu-se o trajeto e o trânsito estava muito lento, a chuva caía fina. Quando chegou no meu destino, percebi que havia mais confusão no trânsito, porém na mão contrária na Av. Protásio. Havia acontecido um assalto no banco com tiroteio. O motorista, desesperado ficou olhando e prestando atenção naquela cena quando freiou bruscamente e literalmente voei no corredor da lotação. Por sorte não me machuquei, consegui me segurar e me equilibrar. Senti uma profunda raiva e briguei com ele dizendo que deveria prestar atenção dentro da lotação para que as pessoas que fossem de sua responsabilidade não se machucassem. Depois, indignada, reclamei com mais uma pessoa que desceu comigo. Andei mais um pouco pela rua e fiquei pensando: eu estava muito mexida com tudo o que tinha visto e estava tentando não pensar. O motorista que estava desesperado havia me pedido mil desculpas e isto não me saiu da cabeça. Que complicado. É muito difícil quando situações traumáticas ocorrem na nossa frente ou com a gente, nos sentimos impotentes, tão humanos... Tão frágeis, tão expostos, para quem recorrer? E em muitos momentos também ficamos tão misturados com a dor do outro, confundidos com a célebre frase: " e se fosse comigo? "
Em psicoterapia o desespero também surge, com todas estas angústias, porém, algumas vezes, de forma até pior, porque se apresenta sem palavras, como uma sensação de horror que paralisa, atrapalha, faz sofrer. As situações que são externas são difíceis, mas ainda pode-se retornar para a vida. Quando as situações são internas, não há para onde correr e o desespero faz com que as soluções desapareçam e todo o ser mergulha na dor e na impossibilidade de forma profunda.
O desespero mental afeta o físico, adoece. O desespero é como um desligamento da mente, fica-se afogado, impulsivo, tomado de horror e nestes momentos há uma real possibilidade de destruir os relacionamentos, o trabalho, a família... No desespero não se pondera, apenas sente-se dor, desespero é reativo.
No tratamento dos horrores e do desespero, as imagens emocionais são como acidentes, assaltos, morte, sangue, destruição, sem saída... Sente-se uma comoção inexplicável. E muitas vezes o registro pode ser apenas emocional. A clínica para desespero dirige seus esforços para a escuta, para dar forma ao sofrimento, oferecer acalanto, tempo e mudança. Tratar as dores emocionais é sempre uma excelente opção quando não se consegue administrar a dor e a razão. É necessário perceber que mesmo com tudo o que acontece lá fora ou com todo o sofrimento que se pode imaginar, ainda assim é preciso sempre cuidar do que está dentro e do que se tem na vida ( família, trabalho, pessoas, planos... ). Porque tudo o que é de uma pessoa é realmente responsabilidade dela mesma, apesar de tudo. Pode-se entender o sofrimento, mas é preciso buscar alternativas para este quando encontra-se muito intenso. Entregar-se à falta de soluções ou se justificar nos fatos da vida, não muda o fato de que temos responsabilidades como seres humanos, tanto consigo mesmo quanto com os outros. Portanto, desespero é horrível! Mas é tratavel.
Em psicoterapia o desespero também surge, com todas estas angústias, porém, algumas vezes, de forma até pior, porque se apresenta sem palavras, como uma sensação de horror que paralisa, atrapalha, faz sofrer. As situações que são externas são difíceis, mas ainda pode-se retornar para a vida. Quando as situações são internas, não há para onde correr e o desespero faz com que as soluções desapareçam e todo o ser mergulha na dor e na impossibilidade de forma profunda.
O desespero mental afeta o físico, adoece. O desespero é como um desligamento da mente, fica-se afogado, impulsivo, tomado de horror e nestes momentos há uma real possibilidade de destruir os relacionamentos, o trabalho, a família... No desespero não se pondera, apenas sente-se dor, desespero é reativo.
No tratamento dos horrores e do desespero, as imagens emocionais são como acidentes, assaltos, morte, sangue, destruição, sem saída... Sente-se uma comoção inexplicável. E muitas vezes o registro pode ser apenas emocional. A clínica para desespero dirige seus esforços para a escuta, para dar forma ao sofrimento, oferecer acalanto, tempo e mudança. Tratar as dores emocionais é sempre uma excelente opção quando não se consegue administrar a dor e a razão. É necessário perceber que mesmo com tudo o que acontece lá fora ou com todo o sofrimento que se pode imaginar, ainda assim é preciso sempre cuidar do que está dentro e do que se tem na vida ( família, trabalho, pessoas, planos... ). Porque tudo o que é de uma pessoa é realmente responsabilidade dela mesma, apesar de tudo. Pode-se entender o sofrimento, mas é preciso buscar alternativas para este quando encontra-se muito intenso. Entregar-se à falta de soluções ou se justificar nos fatos da vida, não muda o fato de que temos responsabilidades como seres humanos, tanto consigo mesmo quanto com os outros. Portanto, desespero é horrível! Mas é tratavel.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
O início de uma psicoterapia
Alguns estudantes de psicologia iniciam uma terapia por exigência do curso de graduação/formação ou por curiosidade (ou pelo menos parece ser isto quando chegam), alguns poucos porque precisam resolver um pequeno problema, mas a maioria dos casos a chegada de uma pessoa à psicoterapia implica em muito sofrimento.
O sofrimento é dor, implacável, paralisante, desorganizadora. A pessoa que chega ao consultório necessita do espaço e de alguém disponível para conversar, desabafar, deixar doer, deixar ser... Rubem Alves comenta em seu livro "Concerto para Corpo e Alma" que lugares para rir, falar da Disney são muitos, mas que os lugares para falar da alma, são muito poucos. Na verdade, há um mito de que terapia é somente: "remexer no baú", "lugar de ver os porquês: porquê não consigo um bom emprego, porquê meu casamento se quebrou, porquê o meu filho não conversa comigo... Tantos porquês... Os seus, os meus, os dos outros... Mas o fato é que para se iniciar uma terapia não se precisa de nada disto, precisa apenas que haja vontade de ambas as partes para compreender e dar novos rumos aos sofrimentos porque mudar necessita tempo, dedicação e paciência. Às vezes o começo resulta no processo, às vezes não, mas isto é uma outra história.
Comentei em postagem anterior que a pobreza psíquica (a rigidez, as fantasias, as crenças negativas que impedem) turva o olhar para as situações da vida, faz com que os resultados sejam fatalistas e "precisos", não abrem as possibilidades, as outras formas (opiniões, sentimentos, vivências, verdades), nos torna aprisionados em esquemas mentais antigos ou até mesmo infantis. Compartilhar experiências desenvolvendo-as em uma atmosfera emocional de confiança e sem outras versões externas confrontantes, desenvolve a capacidade de pensar da pessoa, de criar imagens sobre os fatos da vida dentro dela, sobre os sentimentos, de descrever como percebe as relações, de repensar suas verdades, desenvolve novas capacidades de representar, de amar, de investir, de reconhecer que a mente de uma outra pessoa é tão complexa quanto a sua própria e logo, muitas são as novas possibilidades.
Se o início de uma terapia é marcado, em sua maioria, pelo sofrimento, já o processo do tratamento é diferente, é marcado por múltiplas emoções. Não é raro que uma sessão de terapia passe das lágrimas ao riso, ou do riso às lágrimas... Descobertas não podem ser julgadas e sim sentidas. O sentimento e o compartilhar transforma as pessoas, desenvolve criatividade, autoconhecimento, desejo de coisas novas, paz. Muitas vezes, para se enxergar o que se tem dentro e fora de si mesmo, é preciso perceber a desordem e as falhas de nossos processos adaptativos para se reinventar. Não há um processo de crescimento sem algumas dores, o início é mais difícil, não há garantias, nem controle, para se obter os ganhos, é preciso investir.
Renata Kulpa
O sofrimento é dor, implacável, paralisante, desorganizadora. A pessoa que chega ao consultório necessita do espaço e de alguém disponível para conversar, desabafar, deixar doer, deixar ser... Rubem Alves comenta em seu livro "Concerto para Corpo e Alma" que lugares para rir, falar da Disney são muitos, mas que os lugares para falar da alma, são muito poucos. Na verdade, há um mito de que terapia é somente: "remexer no baú", "lugar de ver os porquês: porquê não consigo um bom emprego, porquê meu casamento se quebrou, porquê o meu filho não conversa comigo... Tantos porquês... Os seus, os meus, os dos outros... Mas o fato é que para se iniciar uma terapia não se precisa de nada disto, precisa apenas que haja vontade de ambas as partes para compreender e dar novos rumos aos sofrimentos porque mudar necessita tempo, dedicação e paciência. Às vezes o começo resulta no processo, às vezes não, mas isto é uma outra história.
Comentei em postagem anterior que a pobreza psíquica (a rigidez, as fantasias, as crenças negativas que impedem) turva o olhar para as situações da vida, faz com que os resultados sejam fatalistas e "precisos", não abrem as possibilidades, as outras formas (opiniões, sentimentos, vivências, verdades), nos torna aprisionados em esquemas mentais antigos ou até mesmo infantis. Compartilhar experiências desenvolvendo-as em uma atmosfera emocional de confiança e sem outras versões externas confrontantes, desenvolve a capacidade de pensar da pessoa, de criar imagens sobre os fatos da vida dentro dela, sobre os sentimentos, de descrever como percebe as relações, de repensar suas verdades, desenvolve novas capacidades de representar, de amar, de investir, de reconhecer que a mente de uma outra pessoa é tão complexa quanto a sua própria e logo, muitas são as novas possibilidades.
Se o início de uma terapia é marcado, em sua maioria, pelo sofrimento, já o processo do tratamento é diferente, é marcado por múltiplas emoções. Não é raro que uma sessão de terapia passe das lágrimas ao riso, ou do riso às lágrimas... Descobertas não podem ser julgadas e sim sentidas. O sentimento e o compartilhar transforma as pessoas, desenvolve criatividade, autoconhecimento, desejo de coisas novas, paz. Muitas vezes, para se enxergar o que se tem dentro e fora de si mesmo, é preciso perceber a desordem e as falhas de nossos processos adaptativos para se reinventar. Não há um processo de crescimento sem algumas dores, o início é mais difícil, não há garantias, nem controle, para se obter os ganhos, é preciso investir.
Renata Kulpa
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